quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Põe tua mão, na mão do teu Senhor...

Ontem à conversa aqui com os colegas percebi uma coisa... a minha relação com a religião tem sido tudo menos estável.

Quando era catraia, andei na catequese (a minha mãe era muito crente - não fanática, mas crente). Estava quase a ir à 1ª Comunhão, quando a minha mãe faleceu. E aí, deu-se um corte radical. Deixei de ir à catequese, não respondi aos apelos da minha catequista que até para casa me ligava a pedir que eu fosse... nada. Que Deus era este que me deixava sem mãe, quando tinha apenas 8 anos? Não queria saber mais Dele. Entrava nas igrejas para ver o interior (a nível de património artístico)  e nos casamentos via a noiva entrar e saía logo.

Depois, por volta dos 17 anos disseram-me que a minha paróquia estava a organizar uma Viagem Apostólica aos Açores. Um dos meus sonhos sempre foi ir aos Açores. Uma amiga minha (mais ligada à Igreja) também queria ir, por isso fomos falar com o padre. Expliquei que não acreditava em nada do que a Igreja dizia, mas queria ir com eles. O padre riu-se e disse-me que desde que eu não me recusasse a participar nas acções e nas missas, era bem vinda. Lá fui eu. Confesso que nesse momento, estive quase a voltar para os braços da Igreja. Adorei ir com eles. A missa era sempre muito interessante e com cânticos, o padre era espectacular... estive quase-quase. Mas a raiva estava lá e não dei o braço a torcer.

Já na altura do estágio na DGT, cheguei a ir, várias vezes, para a igreja de S. Sebastião. E ficava lá sentada a olhar o altar e a pensar na vida. Não sei porquê, mas sentia-me bem ali... mas quando começavam a missa saía logo da igreja e ia para o escritório. Ouvir missa é que não!

Agora, com o falecimento do meu velhote, aquando da missa antes do funeral, ouvi a mensagem. E a mensagem ficou a ressoar no subconsciente e agora sinto quase uma necessidade diária em rezar. Quero acreditar que Deus existe. Quero acreditar que ele está num sitio melhor agora. Que já não sofre. Que permanece lá. Ainda a semana passada fui a Fátima, numa visita de estudo, e senti-me bem. Senti-me em Paz. Senti até vontade, pela primeira vez na vida, de me confessar. Fiquei com vontade de lá voltar para pôr uma velhinha a arder por todos os que já perdi. De rezar por eles, em território sagrado. Tenho curiosidade de comprar uma Bíblia para ler sobre o assunto. Sempre vi muitos documentários sobre o tema, mas a Bíblia em si, nunca li. 

Mas pronto... percebi que a minha relação com a religião, tem sido muito inconstante. Sempre segui ensinamentos de Jesus, como "tratar o próximo como gostaria de ser tratada", mas sempre me pareceu que existem membros da Igreja que conseguem estragar toda a experiência. As pessoas mais beatas que conheço, são também as mais vis! Que parecem viver para falar mal do próximo, para condenar o próximo. É como sempre disse: "Jesus era um homem, filósofo, e a Igreja é que veio estragar tudo" E não deixa de ser verdade! A Igreja parece pegar nos ensinamentos de Jesus e distorcer completamente tudo! Basta dar 1 exemplo: O homem ensina o Amor pelo próximo e eles fazem a Inquisição. 

Não sei, fico apenas feliz, por me parecer que começo a fazer as pazes com a religião. Sei que pode ser uma esperança vã, mas quero mesmo acreditar que existe algo que permita que os meus amores, os ramos que me foram arrancados, estejam bem. Acima de tudo, acima de ir à missa e de praticais os rituais criados pelo Homem, sinto que tenho que estar em Paz comigo mesma e agir de acordo com a minha consciência. Mas talvez isso seja pouco católico da minha pessoa :P






quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Livros e eu

Eu como sou uma pessoa super sofisticada e chique, vi pela primeira um Kindle há coisa de uma semana ou duas... e qual foi a minha reacção?

"Então... mas ela tem uma folha de papel colada nisto, para quê?"

Eu sei! Eu sou de uma chiqueza abismal!

Mas é que fiquei mesmo abananada com a parecença que aquilo tem, com uma folha de papel! Sempre pensei que o monitor fosse do tipo dos pc's\telemóveis\tablets e que tivesse brilho... aliás, nunca me interessou o kindle por isso mesmo. Sempre pensei que ao fim de 5 minutos não fosse capaz de ler nem mais uma linha, e afinal não. Aquilo não tem brilho nenhum, e nem sequer parece um ecrã. A minha alma ficou mesmo parva! 


Fiquei logo maluca e fui ver os preços. E perdi um pouco o interesse. Depois vi que para se comprar os livros tem que ser com cartão de crédito e aqui a je não usa cá disso... e perdi ainda mais o interesse. E depois vi os preços dos livros electrónicos em português e fiquei assim, um pouco aparvalhada... porque se é para pagar exactamente o mesmo preço, qual é suposto ser a mais-valia do kindle?? É que eu cá prefiro muito mais sentir o livro, virar as páginas, ser abraçada pelo aroma (agora foi bonito, digam lá) de um livro novinho em folha, e a magia das páginas e o cheiro a páginas velhas, que um livro já bem velhinho tem?? UHM!!! Epá! Eu cá só era capaz de trocar isto se pelo kindle pudesse comprar livros, sei lá.. a 3€! Agora 16€ um livro electrónico .. epá... não há vantagens. Assim não me rendo. Nem mesmo quando me faltar espaço em casa, porque quando faltar espaço em casa, começo a espalhar pelos sítios que o F. jamais se vai lembrar de procurar e vai sobrar sempre espaço para mais um menino na estante :D


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

E é isto...

Fez ontem um mês. Pensava eu que já andava melhor e até bem a mais... não... não é bem assim.

Já há cerca de uma semana que andava com desejos de fazer uma canja. Ontem finalmente meti na cabeça que a ia fazer. E foi já quando estava a desfiar o frango que de repente, senti um baque no coração. 

"Que dia é hoje?"

E pronto, já nem jantei. Chorei, chorei, chorei até ficar com a cabeça literalmente a explodir, arrastei-me para o sofá e chorei e chorei e chorei. E depois escrevi umas quantas páginas e acalmei.

Sei que para vocês é uma ligação estranha, mas eu sou uma emotional eater - aliás, ando já a cair novamente nesses hábitos e começo a comer e comer e comer até ficar maldisposta - e para mim, há muitos pratos que eu só de sentir o cheiro vejo-me transportada para momentos do passado. Para mim, canja e um bom frango assado sempre foram ligados ao meu avô, porque ele fazia a melhor canja do mundo (e dava-se ao trabalho de comprar a massinha de alfabeto porque era a que aqui a menina mais gostava) e o melhor frango assado que qualquer pessoa poderia comer. Juro pela minha saúde. Nem o meu pai ou a minha sogra lhe conseguiam chegar aos pés, nesses 2 pratos. 

E percebi o porquê da urgência de fazer ontem, canja. E senti-me literalmente na merda.

O subconsciente é uma coisa marada e bem mais atenta do que pensamos.

Começo é a pensar se a enxaqueca que me aflige desde sexta-feira, terá alguma coisa a ver com isto tudo.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Moving on...

Ainda não passou um mês. Ainda não passou um mês desde a última vez que te toquei no rosto e no entanto o ponteiro dos segundos do relógio que dita a minha vida, recomeçou a sua dança. E em mim, fica um grande sentimento de culpa. Culpa sempre que rio, sempre que penso nos desejos para 2013, sempre que sonho com o que esta nova etapa - doutoramento - me pode trazer. Sinto esta imensa culpa porque não deveria estar já tão mais leve.

Ainda não passou um mês desde que senti que a minha vida tinha acabado. Ainda não passou um mês desde que fui forçada a despedir-me de ti. E no entanto, começo a rir-me das piadas dos colegas... começo na minha parvoeira habitual. E não percebo como posso ser tão fria... como posso estar a adaptar-me tão facilmente a esta vida sem ti.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Encontrando forças

Aviso desde já, que nos próximos tempos isto se vai tornar um blog muito deprimente. Eu escrevo porque isso me faz sentir melhor.

Se me encontro, apenas 5 dias depois do que aconteceu, um pouco melhor e já com forças para passar um dia inteiro sem chorar de 5 em 5 minutos, é graças ao F. Os meus amigos também me têm dado muita força e a G., por exemplo, muito me tem distraído e desanuviado a minha cabeça; mas o F. é quem me vê sem ilusões de óptica. As outras pessoas vêm o meu rosto mais sério e estranham não andar na parvoeira do costume, mas o F. percebe como tudo me dói. É ele que, por mais do que uma vez, agarrou nos cacos que restam da minha alma, e com muita atenção e paciência, me vai reconstruindo aos poucos.

O meu pai disse-me que quando eu era pequena um dia disse que sentia a falta da minha mãe e que o meu pai disse que ele era pai e mãe e que nada me faltava. A minha resposta foi: falta o carinho de mãe! De certeza que isto o magoou profundamente. Mas uma pessoa quando é criança não tem filtro e diz tudo o que pensa no momento. E quando eu era criança, a pessoa que realmente assumiu esse papel de dar o carinho que uma mãe dá, não foi o meu pai e sim o meu avô. É por isso que, sim, eu sei que o meu velhote tinha já 87 anos; que já não tinha, praticamente, momentos lúcidos e que quando os tinha chorava e pedia para morrer (pois imaginem o duro que é ser-se toda a vida o homem mais expedito e mais trabalhador que alguma vez se conheceu, e subitamente, aos 87 anos ver-se dependente de outros e sem conhecer quem o rodeia). Eu sei que ele, até o ano de 2012 teve, na medida do possível, uma boa vida. Amou, perdeu, venceu, teve filhos, perdeu uma filha, teve netos e bisnetos, foi adorado por todos quanto o conheceram, viu o mundo e trabalhou, como ninguém, por gosto. Sem medo foi para França - sem falar uma palavra de francês e deu o seu melhor. Aprendeu a falar francês de tal modo que ainda hoje o falava. Sem pensar duas vezes, foi para Inglaterra - sem falar uma palavra de inglês. Porque ele sabia que o mais importante era conseguir trabalhar. Conseguir pôr o pão na mesa. Deu sempre o melhor de si, sem nunca esperar nada em troca.

Sim, eu sei que o meu velhote tinha já 87 anos e que ainda tenho um pai que me ama e um F. que me faz acreditar que existe um Deus, e poucos mas excelentes amigos; mas sinto-me como se tivesse perdido a minha mãe uma segunda vez. Porque os dois eram iguais. A mesma alma pura. Amados por todos quanto os conheciam. E se me dói, é porque não percebo, porque raio são sempre os Bons os primeiros a ir.

Encontrei na internet uma frase que me ajudou a passar ao próximo passo da fase do luto:

"A Morte deixa um vazio que ninguém pode sarar. O Amor deixa uma memória que ninguém pode roubar".


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Árvore Desfolhada

Houve um momento em que fiquei totalmente sozinha, sentada defronte do homem que marcou tanto a minha, não longa vida, mas infelizmente já muito marcada por momentos destes.

Houve um momento em que fiquei totalmente sozinha, e o tempo parecia ter parado.

Como sempre, consigo expressar melhor o que sinto, através da escrita. Bem mais do que a expressão oral. Não que seja excepcional a fazê-lo, mas de qualquer das formas, ajuda-me a ultrapassar as coisas. Por isso, houve um momento em que fiquei totalmente sozinha, e peguei na caneta e em papel:


Uma árvore desfolhada que perdeu um dos seus ramos mais fortes. Uma árvore desfolhada, sem força para sequer amparar os pequenos pássaros que voam livremente tocando o nascer do sol. Uma árvore desfolhada, com o tronco oco.

As raízes perdem a sua profundidade. Já pouco existe para agarrar.

A meu lado o sol segue o seu curso. Como pode ele seguir o seu curso? Quando a razão pela qual ele aquecia a Terra, não existe mais? Como pode ele seguir o seu curso, quando a Voz que ele ouvia, se calou para sempre?

Ao ver-te deitado; as tuas rugas, cada qual com a sua história; as mãos fortes e negras que tanto trabalharam, pela primeira vez imóveis; os teus olhos tão expressivos, para sempre fechados... o meu ser dissolve-se no ar.

A minha árvore perde as suas folhas. O tronco perde a sua força. Metade do tronco seca. E fico assim. Para sempre recordando-me do que fui, do que era e do que nunca voltarei a ser. O vazio que deixaste não poderá, jamais, ser preenchido. Novos ramos nascerão, eventualmente, e os que sobreviveram mais força, talvez, terão. Mas o pedaço que de mim foi arrancado, jamais poderá sarar.

A meu lado o sol segue o seu curso. Deveria segui-lo também, mas as raízes ainda não têm força...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Dormente

Há 19 anos que o dia 21 de Dezembro é uma tortura por causa do que aconteceu, tinha eu 8 anos. Era eu uma criança quando o meu mundo se despedaçou a primeira vez. Fiquei sem a minha mãe.

A primeira pessoa a confortar-me foi o meu avô. O meu avô que tinha perdido a filha e teve que viajar 280km à pressa para chegar a Lisboa e ajudar nos piores preparativos da sua vida, a primeira coisa que fez quando chegou foi perguntar onde eu estava e ir ter comigo para me dar um beijo e um abraço.

Toda a minha vida o meu avô foi a pessoa que eu mais gostava. É duro dizer que o punha à frente do meu pai que tanto sacrifício fez para me dar tudo, mas honestamente, creio mesmo que ele esteve sempre em primeiro lugar, desde que perdi a minha mãe. Amo o meu pai com todas as minhas forças, mas foi sempre o meu avô que me confortou nos piores momentos. Sempre fui a sua menina. A sua princesinha.

Esta sexta-feira fui acordada às 07 da manhã por um telefonema. Estava tão adormecida, ainda, que até desliguei a pensar que era o despertador. Quando liguei de volta ao meu pai, ele deu-me a noticia. O meu velhote morreu durante o sono.

Novamente o 21 de Dezembro serve para destruir o meu mundo. A data está mesmo amaldiçoada. Doi-me ver todos os posts que há no facebook a gozar com o fim do mundo, que afinal não chegou, quando para mim chegou mesmo.

Ainda hoje, dia 24 dou por mim toda a tremer. Desde dia 21 que não faço outra coisa a não ser chorar. Só me apetece chorar e dormir. Até mesmo comer, só obrigada é que consigo fazê-lo. O F. disse-me logo para não deixar de vir ao trabalho, porque sempre ocupo a cabeça com outras coisas. Foi difícil para mim retomar a vida, porque como raio posso eu retomar a vida se sempre que fecho os olhos recordo-me dos momentos que tive com o meu velhote? Das suas frases emblemáticas. Dos passeios que fazíamos? Mas a verdade é que hoje, ao estar aqui, não me sinto melhor, mas ao menos ainda não desatei a chorar. Hoje, sinto-me apenas dormente. Como se me tivessem arrancado um pedaço de mim.

Espero melhorar aos poucos.

Mas começo a odiar o Natal.